DRE gerencial, o que é e como montar

Quando se fala em demonstração de resultado, quase sempre se está falando da contábil. Ela existe para atender obrigação, segue estrutura definida em lei e é montada pelo contador a partir da escrituração.

Numa empresa pequena, ela raramente chega de forma útil. Costuma sair uma vez por ano, e muitas vezes só quando alguém pede. Quando chega, chega depois que tudo já aconteceu.

A gerencial é outra coisa. Mesmos lançamentos, mesma receita, mesmos custos, e uma ordem diferente que responde perguntas que a contábil não responde. Ela não depende de ninguém, e para a maior parte das operações pequenas é a única que vai existir de verdade.

Os valores deste texto são exemplo. Eles repetem de propósito a mesma operação do guia sobre ponto de equilíbrio, com os mesmos custos fixos e a mesma margem, para que as duas contas possam ser lidas sobre os mesmos números.

A diferença não está nos números, está na ordem

As duas usam os mesmos lançamentos. O que muda é o critério de agrupamento.

A contábil agrupa por natureza: despesas com vendas de um lado, administrativas de outro, financeiras num terceiro. Essa ordem está no artigo 187 da Lei 6.404 de 1976, que determina o que a demonstração precisa discriminar e em que sequência. Ela serve para comparar empresas entre si, justamente porque todas organizam igual.

A gerencial agrupa por comportamento: de um lado o que varia com a venda, do outro o que acontece de qualquer jeito. Essa separação é a mesma do guia sobre ponto de equilíbrio, e é ela que muda o que a demonstração consegue mostrar.

A consequência é específica: a margem de contribuição não existe na demonstração contábil. Não é omissão, é que ela só aparece quando os custos são separados por comportamento, e a estrutura legal separa por função. Quem procurar essa linha no documento que o contador entrega não vai achar, porque ela não está prevista lá.

A estrutura, linha por linha

Uma loja com R$ 70.000,00 de faturamento no mês, no Simples Nacional. A primeira dedução reúne o imposto sobre a venda e o que voltou por devolução ou abatimento, porque nenhum dos dois é receita que ficou com a empresa.

Linha Valor % da receita
Receita bruta R$ 70.000,00 100,0%
Deduções: impostos e devoluções R$ 7.000,00 10,0%
Receita líquida R$ 63.000,00 90,0%
Custo da mercadoria vendida R$ 35.000,00 50,0%
Lucro bruto R$ 28.000,00 40,0%
Frete de saída R$ 7.700,00 11,0%
Comissões de canal R$ 3.500,00 5,0%
Taxas de meio de pagamento R$ 1.050,00 1,5%
Embalagem R$ 350,00 0,5%
Margem de contribuição R$ 15.400,00 22,0%
Custos fixos R$ 13.000,00 18,6%
Resultado do mês R$ 2.400,00 3,4%

A coluna de percentual sobre a receita é o que torna a demonstração comparável entre meses. Valores absolutos sobem e descem com o volume, e sozinhos não dizem se a operação melhorou.

Os três cortes, e a pergunta de cada um

Quatro linhas aparecem em negrito. A receita líquida é só um subtotal, mas as outras três são respostas, cada uma para uma pergunta diferente.

Lucro bruto, 40,0%: responde se a compra e o preço estão coerentes. É o corte que fala com o fornecedor e com a tabela de preços, e o único que a demonstração contábil também mostra. A diferença entre ele e a margem de contribuição está no guia sobre margem de contribuição e lucro bruto.

Margem de contribuição, 22,0%: responde quanto cada real vendido deixa para pagar o que existe mesmo sem venda. É o corte que decide catálogo, canal e desconto.

Resultado do mês, 3,4%: responde se a empresa deu lucro. É o único que depende de volume, porque os custos fixos não mudam com ele.

O terceiro é o mais frágil dos três, e é onde a leitura costuma escorregar. Uma margem de contribuição de 22% é a mesma em qualquer nível de faturamento. Um resultado de 3,4% só existe naquele volume. Com R$ 59.000,00 de receita, os mesmos 22% deixariam o mês empatado.

O que a ordem revela que o total esconde

Um resultado de R$ 2.400,00 sobre R$ 70.000,00 pode significar coisas muito diferentes, e o número sozinho não distingue.

Se o CMV estiver em 50% quando deveria estar em 45%, o problema é de compra ou de preço, e ele nasce lá em cima. Se o frete de saída estiver em 11% quando os meses anteriores mostravam 8%, as causas possíveis são quatro: tabela reajustada, peso cadastrado errado, mix de destinos mais caro, ou cobrança acima do contratado. A última é a que menos gente confere, e ela existe: peso aferido diferente do declarado, reentrega lançada como envio novo, taxa que não estava na tabela negociada. Se os fixos subiram e o resto ficou igual, o problema é de estrutura.

Os três produzem exatamente o mesmo resultado no rodapé e pedem soluções que não têm nada a ver uma com a outra. A demonstração empilhada existe para dizer qual linha se moveu, e é por isso que ela vale mais em série do que isolada.

O mesmo mês ao lado do anterior mostra o que nenhum dos dois mostra sozinho.

Linha Mês anterior Mês atual
Receita bruta R$ 62.000,00 R$ 70.000,00
Lucro bruto 44,0% 40,0%
Frete de saída 8,5% 11,0%
Margem de contribuição 28,5% 22,0%
Resultado R$ 4.670,00 R$ 2.400,00

O faturamento subiu quase 13% e o lucro caiu R$ 2.270,00. Um relatório de vendas mostraria o mês como o melhor do trimestre.

Duas linhas explicam a queda inteira. O lucro bruto perdeu quatro pontos, o que aponta para custo de compra ou preço de venda, e o frete de saída ganhou dois pontos e meio, o que aponta para tabela, peso ou mix de destinos. Os custos fixos não mudaram, então a estrutura não tem culpa nenhuma. Sem a demonstração empilhada, a conversa sobre esse mês começaria por cortar despesa, que é exatamente o lugar onde não está o problema.

De onde sai cada número

Montar a estrutura é a parte fácil. O trabalho está em preencher, e cada linha vem de um lugar diferente.

Receita bruta: soma dos pedidos faturados no mês. Confira contra o total das notas emitidas, porque relatório de canal e nota fiscal divergem com frequência.

Deduções: a guia do regime, no caso do Simples, mais as devoluções do período.

Custo da mercadoria: pela conta do período, não pelo custo cadastrado, como o guia sobre o CMV do mês detalha.

Frete de saída: fatura da transportadora e repasses do canal, nunca a estimativa que apareceu no checkout.

Comissões e taxas: extrato de repasse do marketplace e extrato do adquirente, os dois consolidados por período. Se você antecipa recebível, a taxa de antecipação entra aqui e costuma ser a maior das três.

Custos fixos: a lista que o guia sobre ponto de equilíbrio monta, com o pró-labore dentro.

Repare no padrão. Quase todos esses números só existem depois que o mês fechou, e vêm em documentos diferentes, de origens diferentes, sem chave comum entre eles. É por isso que a demonstração gerencial é mensal e não diária, e é a mesma razão pela qual nenhum sistema de gestão a monta sozinho, tratada no guia sobre o que o ERP não calcula.

Onde a montagem costuma errar

Quatro erros aparecem com frequência, e eles se dividem em dois tipos.

Misturar comportamento na mesma linha: verba mensal de anúncio é fixa, comissão paga por venda é variável, e as duas costumam cair juntas em uma linha chamada marketing. Quando isso acontece, a margem de contribuição sai errada e o ponto de equilíbrio calculado a partir dela também.

Usar o custo cadastrado como CMV: o valor da nota de compra não é o custo da mercadoria, e a conta do período tem regra própria, tratada no guia sobre o CMV do mês.

Trocar de regime no meio da demonstração: competência é registrar quando o fato acontece, caixa é registrar quando o dinheiro entra ou sai. Receita pelo que foi faturado e comissão pelo que já foi repassada mistura os dois, e o mês acaba com venda de setembro ao lado de custo de agosto. Escolha um critério para todas as linhas e mantenha por todos os meses.

Esquecer o pró-labore: ele é custo fixo, e omiti-lo faz a empresa parecer saudável enquanto o dono não recebe.

Dois deles inflam o resultado, o CMV pelo custo cadastrado e o pró-labore esquecido, e o número sai bom demais sem que nada pareça errado. Os outros dois corrompem a comparação entre meses, porque cada mês passa a ser montado com um critério diferente. Os quatro produzem demonstrações plausíveis, e é isso que os torna caros.

Por canal, é onde ela deixa de ser relatório

A demonstração consolidada mostra a empresa. Ela não mostra que um canal pode estar consumindo o que o outro produz.

A mesma estrutura montada por canal, ou por linha de produto, responde isso. Exige apenas que os custos variáveis sejam rastreáveis até a origem, o que quase sempre é possível, porque comissão, frete e taxa já vêm identificados por pedido.

Uma regra importa nessa versão: pare na margem de contribuição. Custo fixo não pertence a canal nenhum, e ratear aluguel entre marketplace e loja própria produz um número que parece preciso e não é. A comparação legítima entre canais é de contribuição, não de resultado.

Quando essa separação aparece pela primeira vez, é comum descobrir que o canal de maior faturamento não é o de maior contribuição. É a mesma inversão que o guia sobre margem real mostra pedido a pedido, agora no tamanho do mês.

O que ela não faz

A gerencial não substitui a contábil, e essa confusão custa caro quando aparece.

A contábil tem estrutura definida em lei e é a que vai para o contador, para o banco e para qualquer processo formal, enquanto a gerencial não tem forma obrigatória e a que este texto mostra é uma entre várias possíveis, montada do jeito que responde às perguntas desta seção. Ninguém aceita uma no lugar da outra.

Elas também não precisam bater linha a linha. A gerencial pode ser mensal, por canal, e usar o critério que for mais útil. A contábil segue o período e as regras dela. Quando as duas divergem, isso não é erro de nenhuma das duas, é a diferença de propósito aparecendo.

O que a gerencial faz, e a outra não, é ficar pronta antes de a decisão precisar ser tomada. Montar a primeira leva uma tarde. A segunda leva vinte minutos, porque a estrutura já existe. E é a partir da terceira que ela começa a responder a única pergunta que interessa no fim do mês, que é qual linha se moveu.

Falar no WhatsApp Como funciona

Quando alguma dessas contas muda, sai no Observatório: tributação, frete, pagamentos e canais de venda, com o efeito no custo de cada pedido.