Equipe Truesail · Atualizado em
Quando se fala em demonstração de resultado, quase sempre se está falando da contábil. Ela existe para atender obrigação, segue estrutura definida em lei e é montada pelo contador a partir da escrituração.
Numa empresa pequena, ela raramente chega de forma útil. Costuma sair uma vez por ano, muitas vezes só quando alguém pede, e quando chega, tudo já aconteceu.
A gerencial usa os mesmos lançamentos, a mesma receita e os mesmos custos numa ordem diferente, que responde perguntas que a contábil não responde. Ela não depende de ninguém, e para a maior parte das operações pequenas é a única que vai existir de verdade.
Os valores deste texto são exemplo. Eles repetem de propósito a mesma operação do guia sobre ponto de equilíbrio, com os mesmos custos fixos e a mesma margem, para que as duas contas possam ser lidas sobre os mesmos números.
As duas demonstrações usam os mesmos lançamentos. O que muda é o critério de agrupamento.
A consequência é específica: a margem de contribuição não existe na demonstração contábil. Ela só aparece quando os custos são separados por comportamento, e a estrutura legal separa por função, então quem procurar essa linha no documento que o contador entrega não vai achar.
O exemplo é uma loja com R$ 70.000,00 de faturamento no mês, no Simples Nacional. A primeira dedução reúne o imposto sobre a venda e o que voltou por devolução ou abatimento, porque nenhum dos dois é receita que ficou com a empresa.
| Linha | Valor | % da receita |
|---|---|---|
| Receita bruta | R$ 70.000,00 | 100,0% |
| Deduções, impostos e devoluções | R$ 7.000,00 | 10,0% |
| Receita líquida | R$ 63.000,00 | 90,0% |
| Custo da mercadoria vendida | R$ 35.000,00 | 50,0% |
| Lucro bruto | R$ 28.000,00 | 40,0% |
| Frete de saída | R$ 7.700,00 | 11,0% |
| Comissões de canal | R$ 3.500,00 | 5,0% |
| Taxas de meio de pagamento | R$ 1.050,00 | 1,5% |
| Embalagem | R$ 350,00 | 0,5% |
| Margem de contribuição | R$ 15.400,00 | 22,0% |
| Custos fixos | R$ 13.000,00 | 18,6% |
| Resultado do mês | R$ 2.400,00 | 3,4% |
A coluna de percentual sobre a receita é o que torna a demonstração comparável entre meses. Valores absolutos sobem e descem com o volume, e sozinhos não dizem se a operação melhorou.
Quatro linhas aparecem em negrito. A receita líquida é só um subtotal, e as outras três são respostas, cada uma para uma pergunta diferente.
O terceiro é o mais frágil dos três, e é onde a leitura costuma escorregar. Uma margem de contribuição de 22% é a mesma em qualquer nível de faturamento, enquanto um resultado de 3,4% só existe naquele volume, e com R$ 59.090,91 de receita os mesmos 22% deixariam o mês empatado.
Um resultado de R$ 2.400,00 sobre R$ 70.000,00 pode significar coisas muito diferentes, e o número sozinho não distingue. O lugar da demonstração onde a mudança aparece é que diz qual é o problema.
Se o CMV estiver em 50% quando deveria estar em 45%, o problema é de compra ou de preço, e ele nasce lá em cima. Se os fixos subiram e o resto ficou igual, o problema é de estrutura.
Se o frete de saída estiver em 11% quando os meses anteriores mostravam 8%, as causas possíveis são quatro: tabela reajustada, peso cadastrado errado, mix de destinos mais caro ou cobrança acima do contratado. A última é a que menos gente confere, e ela existe, com peso aferido diferente do declarado, reentrega lançada como envio novo e taxa que não estava na tabela negociada.
Os três casos produzem exatamente o mesmo resultado no rodapé e pedem soluções que não têm nada a ver uma com a outra. A demonstração empilhada existe para dizer qual linha se moveu, e é por isso que ela vale mais em série do que isolada.
O mesmo mês ao lado do anterior mostra o que nenhum dos dois mostra sozinho. A tabela compara os dois meses da mesma loja.
| Linha | Mês anterior | Mês atual |
|---|---|---|
| Receita bruta | R$ 62.000,00 | R$ 70.000,00 |
| Lucro bruto | 44,0% | 40,0% |
| Frete de saída | 8,5% | 11,0% |
| Margem de contribuição | 28,5% | 22,0% |
| Resultado | R$ 4.670,00 | R$ 2.400,00 |
O faturamento subiu quase 13% e o resultado caiu R$ 2.270,00. Um relatório de vendas mostraria esse mês como o melhor do trimestre.
Duas linhas explicam a queda inteira. O lucro bruto perdeu quatro pontos, o que aponta para custo de compra ou preço de venda, e o frete de saída ganhou dois pontos e meio, o que aponta para tabela, peso ou mix de destinos.
Os custos fixos não mudaram, então a estrutura não tem culpa nenhuma. Sem a demonstração empilhada, a conversa sobre esse mês começaria por cortar despesa, que é exatamente o lugar onde o problema não está.
Montar a estrutura é a parte fácil. O trabalho está em preencher, e cada linha vem de um lugar diferente.
Quase todos esses números só existem depois que o mês fechou, e vêm em documentos diferentes, de origens diferentes, sem chave comum entre eles. Por isso a demonstração gerencial é mensal, e não diária, e pela mesma razão nenhum sistema de gestão a monta sozinho, como mostra o guia sobre o que o sistema de gestão não calcula.
Quatro erros aparecem com frequência, e eles se dividem em dois tipos. Os dois primeiros inflam o resultado, e os dois últimos corrompem a comparação entre meses.
A saída do último erro é escolher um critério para todas as linhas e mantê-lo por todos os meses. Os quatro produzem demonstrações plausíveis, e é isso que os torna caros.
A demonstração consolidada mostra a empresa, e esconde que um canal pode estar consumindo o que o outro produz. A mesma estrutura montada por canal, ou por linha de produto, responde isso.
A versão por canal exige apenas que os custos variáveis sejam rastreáveis até a origem. Isso quase sempre é possível, porque comissão, frete e taxa já vêm identificados por pedido.
Uma regra importa nessa versão: parar na margem de contribuição. Custo fixo não pertence a canal nenhum, e ratear aluguel entre marketplace e loja própria produz um número que parece preciso sem ser, então a comparação entre canais se faz pela contribuição.
Quando essa separação aparece pela primeira vez, é comum descobrir que o canal de maior faturamento não é o de maior contribuição. É a mesma inversão que o guia sobre margem real mostra pedido a pedido, agora no tamanho do mês.
A gerencial não substitui a contábil, e essa confusão custa caro quando aparece. A contábil tem estrutura definida em lei e é a que vai para o contador, para o banco e para qualquer processo formal, e ninguém aceita uma no lugar da outra.
A gerencial não tem forma obrigatória, e a que este texto mostra é uma entre várias possíveis. As duas também não precisam bater linha a linha, porque a gerencial pode ser mensal, por canal e com o critério mais útil, enquanto a contábil segue o período e as regras dela.
Quando as duas divergem, o que aparece é a diferença de propósito entre elas, e não um erro. Cada uma responde a quem a pediu.
O que a gerencial faz, e a outra não, é ficar pronta antes de a decisão precisar ser tomada. Montar a primeira leva uma tarde, a segunda leva vinte minutos porque a estrutura já existe, e a partir da terceira ela começa a responder a pergunta que interessa no fim do mês, que é qual linha se moveu.
O Truesail monta a DRE gerencial a partir da conta de cada pedido, feita no dia em que ele entrou. O resultado do mês aparece enquanto o mês ainda está acontecendo, e não semanas depois. A DRE gerencial automática mostra de onde vem cada linha.
Quando alguma dessas contas muda, sai no Observatório: tributação, frete, pagamentos e canais de venda, com o efeito no custo de cada pedido.