Existem duas perguntas diferentes com o mesmo nome, e é por isso que a busca por CMV devolve respostas que não conversam entre si.
A primeira é quanto custou aquele produto específico, para formar preço e saber a margem de um pedido. Essa conta é por unidade e está no guia sobre o custo da mercadoria vendida.
A segunda é quanto custou tudo o que saiu do estoque no mês. Essa é do fechamento, aparece na demonstração de resultado, e é a que este texto trata.
Os valores são exemplo e servem para mostrar a mecânica. A parte sobre métodos de valoração foi apurada em setembro de 2026.
CMV é o estoque inicial mais as compras do período menos o estoque final.
CMV do período = estoque inicial + compras líquidas − estoque final
Estoque inicial: o valor do que estava guardado no primeiro dia do mês, que é o estoque final do mês anterior.
Compras do período: tudo que entrou, ao custo de aquisição, descontadas as devoluções feitas ao fornecedor e os abatimentos obtidos depois da compra. É por isso que a fórmula aparece escrita com compras líquidas em boa parte do material contábil. Mercadoria que voltou para o fornecedor nunca ficou disponível para vender, e somá-la infla o CMV do mês inteiro. O custo de aquisição inclui frete de entrada e os impostos que não voltam, pelas mesmas regras que valem para o custo unitário.
Estoque final: o valor do que sobrou no último dia, contado ou apurado.
| Valor | |
|---|---|
| Estoque inicial | R$ 84.000,00 |
| Compras no mês | R$ 47.500,00 |
| Estoque final | R$ 79.200,00 |
| CMV do período | R$ 52.300,00 |
É esse valor que se subtrai da receita líquida para chegar ao lucro bruto, antes de qualquer despesa da operação entrar na conta.
Leia a fórmula de novo e procure a palavra venda. Ela não está lá, e a ausência é o ponto.
A conta do período não pergunta o que você vendeu. Ela pergunta o que entrou e o que sobrou, e conclui que o resto saiu. É uma dedução sobre o estoque, não uma soma de pedidos.
A consequência é grande. Tudo o que saiu está dentro desse número, e sair não é sinônimo de vender. Produto quebrado no estoque saiu. Item furtado saiu. Amostra enviada, brinde, produto vencido, peça devolvida pelo cliente e descartada, unidade que existe no sistema e não existe na prateleira, todos saíram.
Isso não é defeito da fórmula. É a única conta da sua operação que enxerga essas saídas, porque nenhuma delas gera pedido e portanto nenhuma delas aparece em relatório de vendas.
Esta é a pergunta que mais aparece na busca, e a resposta honesta não é a que costuma ser dada.
Se o negócio começou agora, o estoque inicial é zero e a conta funciona sem ajuste. Primeiro mês tem estoque inicial zerado por definição.
Se você não faz contagem física, o caso é outro e merece atenção. O saldo que o sistema mostra não é uma contagem, é o resultado de somar entradas e subtrair saídas registradas. Usar esse saldo como estoque final torna a fórmula circular. Ela devolve o custo de tudo que o sistema registrou como saída, que é o mesmo número que você obteria somando o custo unitário item por item. A conta não descobre nada, ela apenas repete o que já estava lançado.
Ou seja, sem contagem física, a fórmula do período não acrescenta informação nenhuma. Ela dá mais trabalho e chega ao mesmo lugar.
O valor da conta está na contagem. Não é o cálculo que revela alguma coisa, é o confronto entre o que a prateleira tem e o que o sistema diz que ela deveria ter. Quem não conta pode calcular o CMV pelo custo unitário e ficar em paz, porque o resultado será idêntico.
Se contar o estoque inteiro é inviável, conte uma parte. Os dez ou vinte produtos de maior giro respondem pela maior parte do valor e concentram quase toda a perda.
Com contagem física na mão, você tem dois números para o mesmo mês.
Antes de comparar, duas condições precisam valer, e elas são o assunto das duas seções seguintes. Os dois lados têm que usar o mesmo método de valoração e o mesmo critério de imposto. Se um lado calcula por custo médio e o outro por outra regra, ou se um soma imposto que o outro não soma, parte da diferença é de cálculo e não de estoque. Chamar isso de perda seria acusar a prateleira de um erro que está na planilha.
O primeiro é o CMV do período, que veio da fórmula. O segundo é a soma dos custos unitários de tudo que foi efetivamente vendido, produto por produto.
| Valor | |
|---|---|
| CMV pelo estoque | R$ 52.300,00 |
| Custo dos itens vendidos | R$ 50.100,00 |
| Diferença | R$ 2.200,00 |
São 4,2% do CMV que saíram do estoque sem virar venda. Perda, quebra, furto, erro de cadastro, produto separado e não faturado, entrada lançada em duplicidade.
Nenhuma dessas linhas aparece em relatório de vendas, porque nenhuma delas é uma venda, e mesmo assim todas entram inteiras no seu lucro bruto, reduzindo o resultado do mês sem que exista um pedido para culpar nem um produto para tirar do catálogo.
Uma diferença pequena e estável é normal em qualquer operação. Uma diferença que cresce mês a mês, ou que aparece concentrada em poucos produtos, é sinal de que existe um problema físico ou de cadastro esperando ser encontrado.
Onde ela se concentra indica por onde começar a procurar. Espalhada por muitos itens em valor pequeno, o caminho costuma ser o cadastro: peso, variação e unidade de medida trocada na entrada. Concentrada em poucos itens de valor alto, o caminho é físico: onde eles ficam guardados, quem tem acesso, como são separados. E se ela aparecer justamente nos produtos de maior giro, confira a baixa de estoque antes de procurar culpado, porque mercadoria que saiu e não foi registrada produz exatamente esse sintoma.
A nota de compra traz mais de um valor, e nem todos são custo. A regra é uma só.
Imposto que você recupera não é custo. Ele vira crédito e é abatido do que você deve. Entra no caixa como adiantamento, não como despesa do produto.
Imposto que fica com você é custo. Ele nunca volta, então faz parte do que aquela mercadoria custou.
O que decide de qual lado cada valor cai é o seu regime tributário e o tipo da operação. Empresa do Simples Nacional em geral não aproveita crédito de ICMS nas compras, então o imposto embutido é custo. Empresa que apura pelo lucro presumido ou real e é contribuinte de ICMS costuma creditar, e aí o valor sai do custo. Já o ICMS recolhido por substituição na entrada, para quem revende, normalmente não gera crédito e é custo. O IPI segue a mesma lógica: a indústria costuma se creditar, o comércio que revende não, e nesse caso ele entra no custo da mercadoria.
Errar isso distorce o CMV nos dois sentidos. Somar imposto recuperável infla o custo e esconde margem que existe. Ignorar imposto que não volta faz o oposto, e é o erro mais comum.
Esse é o ponto do texto que mais depende do seu caso concreto, e é o que vale confirmar com o seu contador antes de fechar o mês.
Quando o mesmo produto entrou por preços diferentes, o CMV depende de qual entrada você considera que saiu.
Duas compras de cem unidades, a primeira a R$ 20,00 e a segunda a R$ 30,00, ambas antes de qualquer venda. Cem unidades vendidas no mês.
| CMV do mês | Estoque final | |
|---|---|---|
| Primeiro que entra, primeiro que sai | R$ 2.000,00 | R$ 3.000,00 |
| Custo médio ponderado | R$ 2.500,00 | R$ 2.500,00 |
Mesmas compras, mesmas vendas, R$ 500,00 de diferença no resultado do mês. Nenhum dos dois está errado.
A legislação brasileira aceita esses dois para apuração de imposto e não aceita o método inverso, em que a última entrada é a primeira a sair, porque em cenário de preços em alta ele empurra o custo para cima e reduz o lucro tributável. Quem define isso é o regulamento do imposto de renda, o Decreto 9.580 de 2018.
O custo médio ponderado é o mais usado pelos sistemas de gestão, e é o que o guia sobre o custo unitário ensina a calcular. O importante é escolher um e não trocar no meio do caminho, porque comparar meses calculados por métodos diferentes não significa nada.
As duas contas servem a decisões diferentes, e nenhuma substitui a outra.
O custo unitário decide preço, desconto e quais produtos ficam no catálogo. É a conta do dia a dia.
O CMV do período fecha o mês, alimenta o lucro bruto e revela o que sumiu. É a conta da conferência.
Quem só faz a primeira nunca descobre a perda, porque a perda não tem pedido. Quem só faz a segunda tem o total certo e não sabe qual produto o produziu. E o lucro bruto que sai daí é o número que a comparação com a margem de contribuição usa como ponto de partida.
Escolha o último mês fechado, porque mês corrente não tem estoque final.
O estoque inicial você já tem, é o estoque final do mês anterior. As compras saem das notas de entrada do período, somadas ao custo de aquisição e não ao valor do item na nota.
Para o estoque final, conte. Se contar tudo for inviável, escolha os dez produtos de maior giro e conte só eles, comparando com o saldo do sistema produto por produto.
Aplique a fórmula e guarde o número. Depois some o custo unitário dos itens vendidos naquele mesmo mês, pelo mesmo método de valoração que você usou nas compras, e compare os dois.
A diferença entre eles é o que saiu do estoque sem virar receita.
Anote o valor junto com a data, porque uma medição sozinha não conclui nada. É a segunda que mostra se o número é estável, e a terceira que mostra se ele está crescendo. Refaça no mês seguinte com os mesmos produtos e o mesmo método de contagem, senão você estará comparando duas coisas diferentes e chamando isso de tendência.
Quando alguma dessas contas muda, sai no Observatório: tributação, frete, pagamentos e canais de venda, com o efeito no custo de cada pedido.