Todo vendedor do Mercado Livre sabe a comissão da sua categoria. Poucos sabem quanto a venda custou.
A comissão é a camada visível. Ela aparece no anúncio, aparece no extrato e é o número que circula em qualquer conversa sobre marketplace. Abaixo dela existem outras duas, e são elas que decidem se aquela venda deixou dinheiro.
Este texto foi apurado em setembro de 2026. Os percentuais e valores citados são faixas de referência, não tabela. A regra final é sempre a que está na sua conta.
Comissão por categoria e tipo de anúncio: um percentual sobre o valor do pedido. Muda conforme a categoria do produto e conforme o anúncio ser Clássico ou Premium. O Premium custa mais e embute parcelamento sem juros para quem compra.
Custo por unidade vendida: um valor cobrado por item, que existe abaixo de um determinado preço e desaparece acima dele.
Frete: acima desse mesmo degrau, oferecer frete grátis deixa de ser escolha. A plataforma subsidia uma fatia conforme a reputação do vendedor. O resto sai do bolso de quem vendeu e varia por peso, dimensão e distância.
As duas últimas camadas não acontecem juntas. Ou o produto está abaixo do degrau e paga custo por unidade, ou está acima e paga frete.
A faixa de comissão que circula em 2026 vai de 10% a 14% no Clássico e de 15% a 19% no Premium. São intervalos, e o intervalo é largo. Categoria de margem apertada tende ao piso, moda e acessórios tendem ao teto, e a subcategoria muda o número dentro da mesma família.
Aqui está o ponto que boa parte do material publicado sobre o assunto ainda não incorporou.
Até o início de 2026, o custo por unidade era tabelado por faixa de preço. Um valor para cada faixa, e nada além disso. Os números que ainda circulam, entre R$ 6,00 e R$ 6,75, descrevem esse modelo.
A documentação de custos do Mercado Livre para desenvolvedores, atualizada em 6 de março de 2026, registra a troca. A estrutura de custos de envio foi alterada e o custo fixo deixou de ser calculado apenas pelo preço do produto. Ele passou a depender do tipo de logística do vendedor. A ativação no Brasil foi em 2 de março de 2026. A própria documentação avisa que uma simulação feita sem informar o tipo de logística, o modo de envio e o peso faturável não coincide com o que é cobrado de fato.
Peso e dimensão entraram na conta.
A consequência é direta. Dois produtos anunciados pelo mesmo preço, na mesma categoria e no mesmo tipo de anúncio, podem custar valores diferentes por unidade vendida. A diferença está na caixa, não na etiqueta.
Quem copiou um valor único para a planilha em 2025 está calculando margem com uma regra que não existe mais, e esse desvio não se espalha por igual pelo catálogo. Ele se concentra exatamente onde a margem já era fina, no produto pesado e volumoso. Justamente o que menos perdoa erro.
Existe um valor de corte que separa os dois regimes. Abaixo dele, o vendedor paga custo por unidade e o frete é assunto de quem compra. Acima, o custo por unidade some e o frete vira obrigação de quem vende.
Esse valor precisa ser confirmado na sua conta antes de entrar em qualquer planilha. A cifra repetida na maior parte do material de 2026 é R$ 79,00. Existe material publicado em julho de 2026 afirmando que o piso caiu para R$ 19,00 ainda em junho de 2025, o que tornaria quase todo o catálogo elegível ao frete grátis. As duas versões estão no ar hoje, e leitura de terceiros não resolve a dúvida.
O que não muda é a mecânica: o degrau existe e ele inverte quem paga o quê. Um centavo abaixo, você paga um custo por unidade. Um centavo acima, você paga o frete.
Em produto leve, atravessar o degrau costuma compensar. Em produto pesado, o frete que você passa a bancar pode ser maior do que o custo por unidade que você deixou de pagar. É a mesma conta do frete grátis, com um degrau imposto de fora.
Os valores abaixo são exemplo. Servem para mostrar a mecânica, e frete varia por transportadora, origem e volume contratado.
Dois produtos anunciados por R$ 120,00, na mesma categoria, com comissão de 13%. Ambos acima do degrau, portanto nenhum paga custo por unidade.
O produto A pesa 400 g e cabe numa caixa pequena. O produto B pesa 4 kg e ocupa uma caixa grande. Fora isso, para quem olha o anúncio, são a mesma venda.
| Produto A | Produto B | |
|---|---|---|
| Preço anunciado | R$ 120,00 | R$ 120,00 |
| Peso | 400 g | 4 kg |
| Comissão da categoria (13%) | R$ 15,60 | R$ 15,60 |
| Custo do envio | R$ 18,00 | R$ 45,00 |
| Subsídio da plataforma (50%) | R$ 9,00 | R$ 22,50 |
| Frete pago pelo vendedor | R$ 9,00 | R$ 22,50 |
| Sobra antes dos custos próprios | R$ 95,40 | R$ 81,90 |
A comissão é idêntica. O frete é onde eles se separam, e a diferença de R$ 13,50 nasce inteira do peso e do tamanho da caixa.
Na planilha da maioria dos vendedores, esses dois produtos aparecem com a mesma margem, porque foram anunciados pelo mesmo preço e pagam a mesma comissão, e o frete costuma entrar na conta como uma média mensal em vez de um valor por pedido. A separação só aparece quando o envio é calculado item a item. Antes disso, os dois são iguais no papel.
E ainda falta tudo o que não é do canal: o custo da mercadoria, a embalagem e o imposto. No Simples Nacional a alíquota incide sobre o faturamento, e o frete cobrado do cliente entra nessa base quando existe.
O percentual médio. O vendedor adota uma comissão única para a loja inteira porque é o que cabe numa planilha. Categorias diferentes cobram percentuais diferentes, e o erro se espalha por todo o catálogo de uma vez.
O custo por unidade decorado. Era um valor por faixa de preço, virou um cálculo que depende de logística e peso. Quem não atualizou está usando um número que já não descreve nada.
O frete tratado como valor único. Frete não é um número, é uma tabela. Ele muda por transportadora, por peso, por dimensão e pela praça de destino em relação ao endereço de onde a mercadoria sai, o que significa que duas vendas do mesmo produto, pelo mesmo preço, para cidades diferentes, têm custos diferentes. Uma dá lucro. A outra pode não dar.
Três lugares, e nenhum deles é um artigo:
O terceiro é o que fecha a conta. Comissão e custo por unidade aparecem discriminados na venda já realizada, e é ali que se descobre se a estimativa batia. Vale conferir uma venda leve e uma pesada, porque é entre elas que a diferença aparece.
Descobrir a margem no extrato é descobrir tarde. A venda já ocorreu, o preço já foi praticado, e o produto que deu prejuízo continua anunciado pelo mesmo valor amanhã.
A conta que decide alguma coisa é a que existe antes do anúncio ir ao ar e antes do pedido ser faturado. Ela depende de três informações que quase nunca moram no mesmo lugar: o custo real da mercadoria, o custo real de enviar aquele produto para aquele destino e a regra de cobrança do canal onde ele está anunciado.
Enquanto as três vivem em abas separadas, o preço é decidido no escuro e o resultado aparece no mês seguinte. É o mesmo problema da margem real por pedido, com uma camada a mais imposta pelo marketplace.
O primeiro passo não depende de software. Abra o extrato e escolha duas vendas do último mês, a mais leve e a mais pesada. Anote o que foi cobrado de comissão e de custo por unidade em cada uma, e some o frete que saiu do seu bolso. Depois compare os dois números com o percentual que você usa hoje na planilha.
Se a diferença entre as duas vendas for maior do que a margem que você acha que tem, o problema não é o marketplace. É a conta.
Quando alguma dessas contas muda, sai no Observatório: tributação, frete, pagamentos e canais de venda, com o efeito no custo de cada pedido.