O que é CMV e como calcular o custo da mercadoria vendida

CMV é a sigla de custo da mercadoria vendida. É quanto custou, para a sua empresa, o produto que saiu naquele pedido.

Parece a mais simples das contas de uma operação, e é a que mais gente erra. Não por dificuldade de cálculo, mas porque o CMV envelhece. Ele é cadastrado uma vez, no dia em que o produto entrou no sistema, e continua lá enquanto o custo real muda a cada compra nova.

Este guia mostra o que entra no CMV, por que o número cadastrado quase nunca é o número atual, e como calcular o custo médio quando você comprou o mesmo item por preços diferentes.

O que entra no custo da mercadoria

Três componentes, e o primeiro é o único que quase todo mundo lança.

O valor da nota do fornecedor: o preço unitário que o distribuidor cobrou. É o número que costuma virar o CMV cadastrado, e sozinho ele está incompleto.

O frete de entrada: o que custou trazer a mercadoria até o seu estoque, rateado pelas unidades da compra. Uma caixa que veio por R$ 180,00 com 60 unidades acrescenta R$ 3,00 ao custo de cada peça. Esse valor escapa com facilidade. Muitas vezes ele vem na própria nota de compra, e o erro está em dar entrada no produto sem ratear o frete entre as unidades. Quando a transportadora cobra à parte, com vencimento próprio, a chance aumenta: a cobrança é lançada como despesa de transporte e nunca volta para o custo do produto que a gerou.

Os impostos da entrada: aqui há dois cuidados diferentes.

O primeiro é o que já vem na própria nota de compra. Dependendo do produto e do fornecedor, a nota traz IPI, ST ou outros valores somados ao preço unitário, e eles são custo da mercadoria tanto quanto o preço em si. Vale conferir como o seu sistema importa a nota: alguns trazem só o valor do item e deixam o imposto de fora do custo, o que faz o produto entrar mais barato do que foi. Confira o total pago contra o custo que ficou cadastrado.

O segundo é o que pode vir depois. Dependendo do estado de origem, do estado de destino e do regime tributário, a compra interestadual pode gerar recolhimento adicional de ICMS, o diferencial de alíquota (DIFAL). Nem toda operação paga, e o valor varia por estado e por produto. Quando existe, também é custo de aquisição.

O guia sobre margem real mostra o efeito de esquecer só o frete de entrada: 15% de custo invisível num produto, aparecendo antes de qualquer venda acontecer.

Mas há um erro mais silencioso que esquecer um desses itens, e é ele que este guia trata.

Você não comprou o produto uma vez

Comprou várias, por preços diferentes, com fretes diferentes.

Uma garrafa térmica de 1 litro, comprada três vezes no mesmo ano:

Compra Unidades Valor na nota Frete da compra Frete por unidade Custo unitário
Março 60 R$ 42,00 R$ 180,00 R$ 3,00 R$ 45,00
Junho 36 R$ 47,50 R$ 168,00 R$ 4,67 R$ 52,17
Agosto 48 R$ 51,00 R$ 204,00 R$ 4,25 R$ 55,25

Repare em duas coisas.

O preço do fornecedor subiu 21% entre março e agosto, o que é normal em qualquer categoria ao longo de um ano.

E o frete por unidade também mudou, por dois motivos que andam juntos. A compra de junho foi menor, então o custo do transporte se diluiu em menos peças: o mesmo frete dividido por 36 unidades pesa mais que dividido por 60. Além disso, o próprio valor do frete não cai na proporção do lote, porque taxas fixas e coleta existem em qualquer envio. Comprar menos sai mais caro por unidade mesmo quando o preço da nota não muda, e comprar mais costuma trazer desconto no frete além do desconto no produto.

O CMV cadastrado, provavelmente, ainda é R$ 45,00. É o custo da primeira compra, lançado quando o produto entrou no sistema.

Custo médio ponderado

Quando o mesmo produto entra por custos diferentes, o custo unitário correto é a média ponderada pela quantidade, não a média simples dos preços.

A diferença não é detalhe:

Média simples dos três preços de nota R$ 46,83
Total investido (nota + frete) R$ 7.230,00
Total de unidades 144
Custo médio ponderado R$ 50,21

A média simples ignora que você comprou 60 unidades baratas e 48 caras, e trata as três compras como se tivessem o mesmo peso. A ponderada divide o que você realmente gastou pelo que realmente entrou.

A conta é essa, e cabe numa linha:

Custo médio = (valor total pago, com frete e impostos de entrada) ÷ (unidades totais compradas)

O que isso faz com a margem

A mesma garrafa térmica, vendida por R$ 119,90 em marketplace.

Linha Com CMV cadastrado Com CMV real
Receita R$ 119,90 R$ 119,90
Custo da mercadoria −R$ 45,00 −R$ 50,21
Frete de saída −R$ 22,00 −R$ 22,00
Embalagem −R$ 2,50 −R$ 2,50
Comissão do canal, 16% −R$ 19,18 −R$ 19,18
Tarifa fixa −R$ 5,00 −R$ 5,00
Simples Nacional, 10% −R$ 11,99 −R$ 11,99
Resultado R$ 14,23 R$ 9,02
Margem 11,9% 7,5%

São R$ 5,21 de diferença por unidade. Não parece muito.

Só que isso é 37% do lucro que a loja achava que estava fazendo. E nas 144 unidades compradas, são R$ 750,24 de resultado que existia na planilha e não existia no caixa.

O produto não ficou pior. A conta é que estava velha.

Variações do mesmo produto custam diferente

Outro ponto onde o CMV escorrega: quando um produto tem variações e todas herdam o mesmo custo.

A mesma garrafa em 500 ml e em 1 litro não custa o mesmo na compra, não pesa o mesmo no envio e não ocupa o mesmo volume na caixa. Cor, tamanho, voltagem e material mudam o custo de aquisição em graus diferentes, e às vezes mudam também a faixa de frete, como o guia sobre frete detalha.

Quando as variações compartilham um cadastro só, o custo de uma acaba valendo para todas. O resultado é previsível: a variação mais barata parece dar menos lucro do que dá, e a mais cara parece dar mais. As duas decisões que vêm daí, qual promover e qual descontinuar, saem invertidas.

O mesmo vale para o peso cadastrado. Se as variações têm pesos diferentes e o sistema guarda um só, o frete calculado está errado para todas menos uma.

Como manter o CMV vivo

Não existe truque. Existe rotina.

Recalcule na entrada, não na venda: toda nota de compra que chega é a hora de atualizar o custo, porque é o único momento em que você tem o número novo na mão.

Inclua o frete de entrada no mesmo lançamento: se a cobrança da transportadora vier depois, deixe o custo pendente de fechamento em vez de dar por concluído. Frete lançado só como despesa some do produto para sempre.

Guarde o histórico das compras: o custo médio só existe se você souber quantas unidades entraram por quanto. Sem isso, sobra o palpite.

Revise os produtos de maior giro primeiro: um erro de R$ 5,00 num item que vende 150 por mês custa mais que um erro de R$ 20,00 num item que vende cinco.

Trate cada variação como produto próprio: se o custo, o peso ou a dimensão mudam, o cadastro precisa mudar junto.

O que muda quando o CMV está certo

Com o custo real na mão, algumas perguntas passam a ter resposta.

Qual produto realmente dá margem, e qual só parecia dar. Até onde vai o desconto que dá para conceder numa campanha. Se o aumento do fornecedor foi repassado ao preço de venda ou absorvido em silêncio. Se vale comprar em lote maior, comparando o desconto no preço com o ganho no frete diluído.

Nenhuma dessas depende de sistema. Dependem de o número estar atualizado.

O primeiro passo é curto. Pegue os cinco produtos que mais vendem, junte as notas de compra do último ano, some o que foi pago com frete incluído, divida pelas unidades que entraram, e compare com o custo que está no cadastro hoje.

Se a diferença passar de 2% ou 3%, todas as margens que você calculou naquele produto estão erradas, e erradas para mais.

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Quando alguma dessas contas muda, sai no Observatório: tributação, frete, pagamentos e canais de venda, com o efeito no custo de cada pedido.