O frete é o custo mais instável de um pedido. O produto custa o mesmo hoje e amanhã. A comissão do canal é um percentual conhecido. O imposto sai da alíquota do regime. O frete muda por destino, por peso, por dimensão da caixa, por faixa de tabela e por transportadora, e é o único que pode dobrar entre dois pedidos do mesmo item.
É também o custo mais fácil de subestimar, porque quase ninguém olha a tabela antes de vender. Olha depois, quando a fatura da transportadora chega.
Este guia mostra como o custo do frete se forma, por que o peso da balança quase nunca é o peso cobrado, e como descobrir até onde o frete grátis ainda deixa lucro.
Uma tabela de frete não tem um preço. Tem uma matriz.
Praça de destino: a transportadora divide o país em regiões de atendimento, e cada uma tem seu preço. Praça não é o mesmo que estado. Capital e interior do mesmo estado costumam ter valores diferentes, e cidades fora da malha principal entram como redespacho, com acréscimo próprio.
Faixa de peso: o preço sobe em degraus, não de forma contínua. Uma tabela pode cobrar um valor até 10 kg e outro de 10,1 a 15 kg. Duzentos gramas a mais podem custar dez reais. A embalagem existe para proteger a mercadoria, mas ela também é decisão de custo: a caixa que você escolhe define em que degrau da tabela o pedido cai.
Ad valorem: um percentual sobre o valor da mercadoria na nota, normalmente entre 0,3% e 0,6%, que cobre o seguro da carga. Some da conta de quem calcula frete só por peso, porque não aparece na tabela de faixas.
Taxas fixas por despacho: GRIS, taxa de coleta, pedágio, TDA e outras conforme a transportadora. São valores por conhecimento de transporte, e num pedido pequeno pesam proporcionalmente mais.
Prazo e modal: rodoviário e aéreo têm tabelas separadas. O aéreo entrega mais rápido e custa bem mais, e a escolha entre os dois muda o resultado do pedido. O modal também muda a embalagem: carga aérea passa por mais manuseio e por variação de pressão, e produto frágil costuma exigir proteção reforçada para não chegar avariado. Essa proteção pesa e ocupa volume, então ela mesma entra na conta do frete.
Uma tabela negociada real tem dezenas de linhas, e o preço final de um envio é a combinação de todas essas variáveis. É por isso que "quanto custa mandar para São Paulo" não tem resposta única.
Esta é a parte que mais gente ignora, e a que mais estraga a conta.
A transportadora muitas vezes não vende só peso. Vende espaço no caminhão. Um caminhão lota de volume muito antes de lotar de peso quando a carga é leve e volumosa, então a cobrança considera os dois e usa o maior.
Nem toda tabela aplica cubagem. Algumas operações trabalham só por peso real e por quantidade de volumes, e nesse caso o cálculo é mais simples. Vale conferir na sua: se a tabela traz um fator de cubagem, ele se aplica; se não traz, o peso da balança é o que vale.
O cálculo é simples. Multiplique comprimento, largura e altura da caixa em metros para obter o volume em metros cúbicos, e multiplique por um fator de cubagem definido pela transportadora. No rodoviário fracionado brasileiro, esse fator costuma ficar em torno de 300.
Vamos usar o mesmo produto do guia sobre margem real: uma air fryer de 4 litros, que pesa 4,5 kg na balança.
| Caixa | 32 × 32 × 36 cm |
| Volume | 0,0369 m³ |
| Fator de cubagem | 300 |
| Peso cubado | 11,06 kg |
A transportadora cobra o maior entre o peso real e o cubado. Este pedido paga como 11 kg, não como 4,5 kg. Mais que o dobro.
E repare no efeito combinado: 4,5 kg cairia na faixa de até 5 kg; 11 kg cai na faixa de 10,1 a 15 kg. O produto pula duas faixas inteiras sem nunca ter engordado.
Produto leve e volumoso é onde isso dói mais: eletroportáteis, decoração, brinquedo, colchão, luminária. Se o seu cadastro tem só o peso da balança, o custo de frete que você calcula está errado para baixo em todos eles.
São duas contas diferentes, e confundi-las é o segundo erro mais comum.
O que você paga é o custo da transportadora, com tudo o que a tabela cobra. Ele existe em todo pedido, independentemente do que o cliente viu na tela.
O que você cobra é decisão comercial. Pode ser o custo cheio, uma parte dele, ou zero no caso do frete grátis. Também pode ser um valor de tabela própria, arredondado para simplificar a comunicação.
A diferença entre os dois é resultado, e ela pode ser positiva. Quem cobra R$ 30,00 de frete num envio que custa R$ 24,00 está ganhando R$ 6,00 no pedido, e isso é legítimo.
O que não funciona é decidir o que cobrar sem saber o que se paga. Frete grátis é decisão comercial legítima; frete grátis sem conta é aposta.
Antes dos números, duas ressalvas que mudam tudo.
Praça é sempre relativa à origem. A mesma cidade é praça próxima para uma loja e praça distante para outra. Quem despacha de uma capital costuma ter a própria praça bem mais barata que quem despacha do interior, e por isso a tabela abaixo não nomeia cidades. Encaixe as suas.
Os valores são fictícios. Servem para mostrar a estrutura da conta, não para servir de referência de mercado. Preço por faixa, percentual de ad valorem e taxas fixas mudam por transportadora, por origem, por volume contratado e por época do ano. A sua tabela é a única que vale para a sua operação.
O mesmo produto, vendido por R$ 299,00, cobrado como 11 kg:
| Praça de destino | Faixa 10,1–15 kg | Ad valorem (0,45%) | Taxas fixas | Custo do envio |
|---|---|---|---|---|
| Mesma praça da origem | R$ 31,00 | R$ 1,35 | R$ 5,00 | R$ 37,35 |
| Praça próxima | R$ 39,00 | R$ 1,35 | R$ 5,00 | R$ 45,35 |
| Praça média | R$ 52,00 | R$ 1,35 | R$ 5,00 | R$ 58,35 |
| Praça distante | R$ 88,00 | R$ 1,35 | R$ 5,00 | R$ 94,35 |
O envio mais caro custa duas vezes e meia o mais barato. Mesmo produto, mesma caixa, mesmo preço na vitrine.
Aqui os dois guias se encontram.
No guia sobre margem real, esse pedido de R$ 299,00 sobrava R$ 32,76 depois de descontar mercadoria, embalagem, comissão do canal, tarifa e imposto. Esse é o teto: tudo o que existe para pagar o frete são R$ 32,76.
| Praça de destino | Custo do envio | Sobra com frete grátis |
|---|---|---|
| Mesma praça da origem | R$ 37,35 | −R$ 4,59 |
| Praça próxima | R$ 45,35 | −R$ 12,59 |
| Praça média | R$ 58,35 | −R$ 25,59 |
| Praça distante | R$ 94,35 | −R$ 61,59 |
Nenhuma praça se paga. Nem a mais próxima.
Com outra tabela, ou com origem mais perto dos grandes centros, a primeira linha poderia fechar positiva. É exatamente por isso que a conta precisa ser feita com os seus números: o formato é o mesmo para todo mundo, o resultado não.
Isso não significa que o produto seja ruim nem que frete grátis não sirva. Significa que frete grátis irrestrito neste produto, neste preço e nesta tabela, não fecha em lugar nenhum. Quem não faz a conta descobre isso no fechamento do mês, com o prejuízo já multiplicado pelo número de pedidos.
E aqui entra a decisão que só a empresa pode tomar. Frete grátis é ferramenta comercial: aumenta conversão, ajuda a competir em marketplace, viabiliza um lançamento. Absorver parte do custo pode valer a pena, e muita operação faz isso de propósito.
O que muda é saber quanto se está absorvendo. Uma empresa com margem folgada no produto tem espaço para conceder; outra, com o CMV apertado, não tem. E o limite não é por pedido, é por operação: absorver dez reais em cem pedidos é mil reais no mês, que precisam sair de algum lugar. Frete grátis calculado é investimento; frete grátis sem conta é prejuízo com outro nome.
As saídas são conhecidas, e todas dependem de conhecer o número antes:
A última é a mais subestimada. No exemplo acima, reduzir a caixa de 36 cm para 28 cm de altura levaria o peso cubado de 11,06 kg para 8,6 kg, o que muda a faixa de tabela e derruba o custo do envio em todos os destinos de uma vez.
As duas formas convivem, e cada uma resolve um problema.
Plataforma de envio entrega agilidade. Você contrata sem negociar, imprime etiqueta na hora, compara transportadoras numa tela e não gerencia contrato nem volume mínimo. Para quem está começando, ou para quem tem volume baixo e irregular, é o caminho que faz a operação andar.
O preço disso é o custo por envio, que costuma ser mais alto que uma tabela negociada direto, porque há um intermediário na conta.
Tabela negociada entrega custo menor. Você fala com a transportadora, negocia preço por faixa e por praça, e paga menos por envio. Em troca, assume o trabalho: manter contrato, acompanhar reajuste, conferir fatura, lidar com ocorrência.
Uma diferença de dez reais por pedido parece pequena. Em trezentos pedidos por mês, são três mil reais. Em um ano, trinta e seis mil.
Não existe resposta certa para todo mundo. Existe a conta: quanto você paga hoje por envio, quanto pagaria na outra forma, e quanto vale o seu tempo de gestão na diferença. Muita operação usa as duas, com tabela negociada nas rotas de volume e plataforma no resto.
Saber o custo do frete no momento da venda transforma perguntas em decisões.
Até que praça vale oferecer frete grátis neste produto. Qual transportadora sai mais barata para este destino, neste peso, hoje. Se o desconto que o cliente pediu ainda deixa margem depois do envio. Se vale reduzir a embalagem de uma linha inteira de produtos.
Nenhuma dessas perguntas é respondida pela fatura da transportadora, porque ela chega depois.
O primeiro passo não depende de software. Pegue os cinco produtos que mais vendem, meça as caixas, calcule o peso cubado de cada um e compare com o peso cadastrado. Depois abra a tabela da sua transportadora e veja em que faixa cada produto cai de verdade.
Se algum deles estiver cadastrado com metade do peso que a transportadora cobra, você acabou de encontrar um custo que não estava em conta nenhuma.
Quando alguma dessas contas muda, sai no Observatório: tributação, frete, pagamentos e canais de venda, com o efeito no custo de cada pedido.