Quanto o frete representa no custo do produto

Existe um número circulando como resposta para essa pergunta, algo em torno de 15% do preço final. Ele aparece sem base declarada, sem dizer de que frete se trata e sem dizer sobre o que o percentual foi calculado.

O número não é exatamente falso. Ele é uma média entre coisas que não se parecem, e média entre coisas diferentes não descreve nenhuma delas. Dentro de um catálogo só, o frete pode pesar oito vezes mais em um produto do que em outro.

Este texto mostra como calcular o percentual certo, produto por produto, e o que fazer com ele depois. Os valores são exemplo e servem para mostrar a mecânica.

São dois fretes, e eles não dividem a mesma base

A pergunta esconde duas contas, e quase todo material publicado responde uma sem avisar qual. Elas medem custos diferentes, em momentos diferentes da operação.

O frete de entrada: o que custou trazer a mercadoria do fornecedor até o seu estoque, rateado pelas unidades da compra. Ele vira custo do produto e fica lá, como o guia sobre CMV detalha. A base natural dele é o valor da nota de compra, porque no momento em que ele acontece o preço de venda ainda nem existe.

O frete de saída: o que custa levar aquele item até o comprador, por destino e por faixa de peso. Ele morre no pedido, e é o custo que o guia sobre frete real destrincha. A base natural dele é o preço de venda, porque é sobre o preço que todos os outros custos da venda são medidos.

A diferença entre os dois é o que mais importa aqui. O frete de entrada é permanente, porque entrou no custo do item e vai aparecer em toda venda daquela mercadoria até o estoque acabar. O de saída é por pedido, e o mesmo produto pode ter dois valores no mesmo dia.

O rateio do frete de entrada muda o resultado

Quando a nota de compra traz um produto só, o rateio é divisão simples. Quando ela traz doze itens diferentes, é preciso escolher um critério, e a escolha muda o custo de cada um deles.

Por unidade: divide o frete pelo número total de peças. É o mais rápido e o mais distorcido, porque trata uma peça de 2 kg e uma de 200 g como se pesassem igual.

Por valor: divide na proporção do que cada item representa no total da nota. É o critério mais usado, e ele faz o produto caro absorver frete que foi gerado pelo produto pesado.

Por peso: divide na proporção do peso de cada item. É o mais fiel ao que aconteceu, porque foi o peso que gerou a cobrança, e fica mais fiel ainda quando o rateio usa o peso cobrado em vez do peso da balança.

Os três aparecem no mercado e nenhum deles é errado. O que não funciona é trocar de critério entre uma compra e outra, porque aí o custo do mesmo item muda por motivo de planilha, e não por motivo de operação.

Somar os dois percentuais dá um número que não existe

A garrafa térmica do guia sobre CMV foi comprada três vezes no mesmo ano, por preços diferentes e com fretes diferentes. Ponderando as três compras, a nota média fica em R$ 46,38 e o frete de entrada rateado em R$ 3,83 por unidade. Ela é vendida por R$ 119,90, com R$ 22,00 de frete de saída.

Sobre a nota de compra, o frete de entrada representa 8,3%. Sobre o preço de venda, o frete de saída representa 18,3%. Somar os dois e dizer que o frete pesa 26,6% é onde a conta quebra.

Os dois percentuais dividem bases diferentes, e percentuais só somam quando a referência é a mesma. Para responder a pergunta uma vez só, os dois fretes precisam ir para a mesma base.

Valor Sobre o preço de R$ 119,90
Frete de entrada rateado R$ 3,83 3,2%
Frete de saída R$ 22,00 18,3%
Frete total do item R$ 25,83 21,5%

São 21,5%, e não os 26,6% da soma torta. A diferença de cinco pontos percentuais existe porque o frete de entrada foi medido contra um número menor que o preço, o que infla o percentual dele.

Quando o cliente paga o frete

A conta acima supõe que o frete de saída sai do seu bolso, que é o caso do frete grátis e do frete embutido no preço. Quando o cliente paga uma parte ou o valor inteiro, o que entra na conta é a diferença.

Se aquele envio de R$ 22,00 foi cobrado do comprador por R$ 15,00, o frete que sobra com você é de R$ 7,00, e o peso do frete no produto cai de 21,5% para 9,0%. Os dois percentuais usam o preço do produto como base, e não o total pago pelo cliente, para que sejam comparáveis entre si. A distinção entre o que você paga e o que você cobra está no guia sobre frete real, e é ela que decide qual dos dois números você quer.

Duas ressalvas acompanham essa conta. O valor cobrado do cliente vira receita e entra na base do imposto do seu regime, então ele não volta inteiro para o seu bolso. O percentual calculado com repasse mostra a sua exposição, e o calculado sem repasse mostra o custo do produto, de modo que os dois respondem perguntas diferentes e nenhum substitui o outro.

O mesmo catálogo, três respostas diferentes

Três produtos da mesma loja, com a mesma conta aplicada a cada um.

Produto leve e caro Garrafa térmica Produto pesado e barato
Preço de venda R$ 349,00 R$ 119,90 R$ 89,00
Frete de entrada rateado R$ 1,20 R$ 3,83 R$ 5,00
Frete de saída R$ 14,00 R$ 22,00 R$ 28,00
Frete total do item R$ 15,20 R$ 25,83 R$ 33,00
Peso do frete 4,4% 21,5% 37,1%

O primeiro sustenta a operação com folga. O terceiro entrega mais de um terço do preço à logística antes de pagar a mercadoria, a comissão e o imposto.

A distância entre 4,4% e 37,1% não vem de má administração. Vem da física do produto, porque o frete cobra por peso e por espaço ocupado, enquanto o preço é decidido pelo mercado. Produto barato e volumoso é a combinação que o transporte castiga.

A média da loja esconde os três

Suponha que essa loja venda 60 unidades do primeiro, 100 do segundo e 40 do terceiro em um mês. O gasto com frete soma R$ 4.815,00 e o faturamento soma R$ 36.490,00.

O terceiro produto sozinho consome R$ 1.320,00 em transporte para faturar R$ 3.560,00 no mês. A divisão geral, porém, devolve 13,2%, um número redondo, confortável e muito parecido com o que circula por aí como resposta pronta. Ele não descreve nenhum dos três produtos, e o item que mais sangra é justamente o que desaparece dentro dele.

Essa é a conta que quase toda operação faz, porque ela é a única que sai direto do extrato sem trabalho nenhum. O problema é que ela mistura produtos que não se parecem e ainda se move sozinha conforme o mix vendido.

Basta a loja vender 80 unidades do terceiro produto em vez de 40, com todo o resto igual, para a média saltar de 13,2% para 15,3%. Nenhuma tabela de frete mudou, nenhuma caixa mudou e nenhum preço mudou. O indicador subiu dois pontos porque o catálogo girou diferente, o que é exatamente o comportamento que um indicador de custo não deveria ter.

Para que o número serve, e para que não serve

O percentual por produto é diagnóstico. Ele responde onde o frete se concentra, qual item está sendo carregado pelos outros e onde uma caixa menor rende mais.

Ele também serve para comparar o mesmo produto no tempo. Se o peso do frete na garrafa térmica saiu de 21,5% para 27,0% sem que o preço mudasse, houve reajuste de tabela ou mudança no mix de destinos, e os dois são acionáveis.

O que ele não suporta é comparação com número de fora. Um percentual publicado como média de mercado não sabe o seu ponto de despacho, o seu mix de destinos, a sua tabela negociada nem o peso das suas caixas. Perseguir um alvo assim é mirar em algo que não descreve a sua operação.

Também não serve para formar preço. Na hora de definir quanto cobrar, o frete volta a ser um valor por pedido e entra na conta como quantia, nunca como fração, pelo motivo que o guia sobre quanto cobrar por um pedido demonstra com duas tabelas. Diagnosticar com percentual e precificar com valor são etapas diferentes da mesma conta.

O que o percentual não mostra

O imposto sobre o frete cobrado: quando você contrata o transporte e destaca o frete na nota, ele entra na base de cálculo do imposto, e esse valor não aparece em nenhuma linha de custo de frete. O guia sobre FOB e CIF mostra o tamanho disso numa nota só.

O destino de cada pedido: o percentual de um produto é uma média dos destinos que ele teve. A garrafa térmica, com 21,5% de média, está em 14,9% nos pedidos que pagam R$ 14,00 de envio e em 28,2% nos que pagam R$ 30,00, e a média não avisa.

O frete que volta: devolução e reenvio custam transporte que ninguém rateia, e eles se concentram nas categorias de maior troca.

Por que a conta erra

A divisão do frete do mês pelo faturamento do mês: é rápida, sai do extrato e responde outra pergunta, que é quanto a operação inteira gasta com transporte. Ela não diz nada sobre produto nenhum.

O frete de entrada lançado como despesa: quando a cobrança da transportadora chega à parte, com vencimento próprio, ela vira despesa de transporte e nunca volta para o custo do item que a gerou. O percentual sai menor do que é, e sai menor para sempre.

O peso cadastrado errado: o frete de saída usado na conta precisa ser o que a transportadora cobrou, e não o que a tabela devolveria para o peso da balança. Caixa que paga por volume derruba a conta inteira.

O primeiro passo

Não depende de software, e usa dados que você já tem.

Escolha os cinco produtos que mais saem. Para cada um, pegue o frete de entrada rateado da última compra, pelo critério que você já usa, o frete de saída realmente cobrado em um pedido recente, e o preço de venda praticado.

Some os dois fretes e divida pelo preço. O resultado é o peso do frete naquele produto, com as duas pontas na mesma base.

Agora calcule a média da loja, dividindo o gasto total com frete do último mês pelo faturamento do mesmo período. Coloque os seis números lado a lado e repare no tamanho da dispersão entre eles.

O produto que estiver mais acima da média da loja é onde a próxima hora de trabalho rende mais, e a ordem do que fazer com ele importa. Primeiro conferir se o peso cadastrado é o da caixa pronta. Depois medir a caixa de novo. Só então discutir preço.

O trabalho todo é reunir três números que moram em lugares diferentes, porque o frete de entrada está na nota de compra, o de saída está na fatura da transportadora e o preço está no anúncio. Em cinco produtos isso é uma tarde. No catálogo inteiro, a cada compra nova e a cada reajuste de tabela, o limite deixa de ser a conta e passa a ser o esforço de juntar as três pontas.

Falar no WhatsApp Como funciona

Quando alguma dessas contas muda, sai no Observatório: tributação, frete, pagamentos e canais de venda, com o efeito no custo de cada pedido.